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Macarrão! Massa!




Minha avó, Vicentina, a vi fazer massas, mais precisamente fitas largas – um dedo de largura - por um milimetro de espessura – será isso? Ou pode ser um e meio - fitas largas e rústicas, massa aberta no rolo, no muque, cortada sobre a mesa à faca. Primeiro ela abria uma folha larga de massa, depois 'enfarinhava' a mesa com fubá, pousava ai a massa, ' enfarinhava' agora a face de cima da massa com fubá, então a enrolava, justo rocambole sem recheio, e então cortava as fitas, fettuccines largos ou tagliatelles, como queiramos; para agradar um que outro neto manhoso fazia barquinhas, estrelinhas, patinhos, enfim figurinhas que no final todos queriam devorar. Eramos uma família de plantadores de tomate e horta baixa – berinjela, pimentões, giló, quiabos entre outras – e lembro-me do molho que comíamos até sair pelo 'zóio': berinjela frita em cubinhos de um dedo de arestas - será? com tomate e saudades.
Naqueles dias em que deveria fazer alguma coisa em que não gosto, e não há tantas assim, tenho me deparado a aprender a fazer massas. Massaterapia.
Ovos inteiros e sal a gosto no liquidificador, bato até espumar e misturo isso à farinha. A quantidade de ovos deve, pelo que tenho percebido, ser tal que a massa fique mesmo dura. É mais difícil de passá-la pelos cilindros, mas resulta mais gostosuda. Fica com textura lisa e o tal ponto de 'al dente' na hora do cozimento, o tenho conseguido com mais tranquilidade.




 Tenho usado misturas de farinha de sêmola e farinha dita especial. Uma – a especial – dá-lhe elasticidade, a outra um ponto de rugosidade, atrito, onde o molho se adere, e de trincamento, mais precisamente o cozimento não a abranda tanto. Quando fiz somente com farinha especial, quando cozida a massa fica escorregadia, mais se parece a uma enguia, para não fazer pior analogia. O molho fica de um lado e a massa fica de outro, não se combinam, não se casam.
Outro dia coloquei junto aos ovos um punhado de cogumelos secos – reidratados – chilenos, o que resultou numa massa bonita de se ver, com pontinhos de cogumelos e um tom caramelado, creme escuro, jambo, amulatado. Essa massa a cometi com tomates secos caseiros, que sequei ao sol em dois dias. Junto com os linguines havia feito uns barquinhas recheados com – redundância – cogumelos, tomates secos e presunto cru finamente picados e amassados até se amalgamarem. Mas a Joana chegou, perguntou, respondi: Massa recheada e massa seca, sem despregar os olhos do diário virtual – caro diário, facebook -, ela perguntou, respondi que sim que já havia comido. E não sobrou um para a foto. Mas vou repetir. Já sem os tomates secos ao sol, pois agora começa a mudar o tempo e a umidade e a chuva não permitem tal industria. Será feito no forno. É a mesma diferença que há entre a máquina de escrever e o computador, o cd e o lp! Não me importei muito, porque eram produto de aprendizagem, ainda não têm a textura e não sei o quê mais faltava, mas faltava algo, isto: aparência.  

Purê de Mandioquinha com Cogumelo ao vinho.






Desconheço outro olor que se assemelhe ao da mandioquinha, que não seja o de cachorro do mato molhado de chuva tropical. Da mesma maneira que o cheiro de bosque do cogumelo chileno seco. Deixei o cogumelo reidratando em vinho seco. Enquanto preparava o purê, manteiga e creme de leite na mandioquinha passada pelo passa purê. Depois botei os cogumelos em caldo de carne e fui aquecendo-os, engrossando o caldo, os olores foram se misturando na pequena cozinha. Acho que engordo só com os cheiros. E prova daqui, e prova o sal dali. Minha auxiliar, me diz ' deus do céu precisa sujar tanta colher?' Aprendi em San Lucar la Mayor a usar a colher para provar e botar para lavar, e ensinei-os a provar na palma da mão como você faz! Vamos variando. Verdade só o que passou, e ainda com vários prismas interpretativos, a minha, a tua visão e por fim a síntese disputada do nós. Esse cheiro de bosque profundo, vivo, com uivos de lobos, condicionado no prato, a entrar pela boca, narinas. Bom. Muito bom. Vinho tinto bruto, nervoso, cheio de arestas como se fossem as folhinhas agulhadas de pinheiros, como amor depois de desentendimento necessário àquele beijo mais mordida de lábio que beijo em si.