Quando
morava numa república - na verdade: A República – de frente à
praça Sete, justo onde hoje é o Boi-Bom. Naquele antão havia o
Gato e Sapato, o Rato e Chinelo, Cuba Libre, Noite Sem 100 Pressa,
etc. Minha mãe eventualmente nos brindava com algum quitute. Certa
feita foi uma baciada de mandioca cozida. Uma das meninas, que não
quero recordar, com seus carnudos lábios e seus grandes olhos negros
declarou toda sua alegria e incontinente se apoderou duma parte e
nela sapecou Nescau. Como era um 'bocó de mola', agi como tal: me
espantei! Aquilo - à época - fez uma revolução na minha crença
culinária. Hoje sei que as matérias-primas não sabem se são
primeiras matérias para pratos doces ou salgados, o hábito é
nosso. O mesmo se dá com o abacate, que tardei uma eternidade para
descobrir sua guacamolice. O amendoim é outro desses seres no mínimo
ambíguo, que tanto se presta ao doce como ao salgado. Para mim
abacate com amendoim são seres quânticos. Duais – sempre quis
escrever duais – que em conjunto se amalgamam à perfeição. Além
de dar espaço ao exercício pueril de misturar coisas com o garfo,
ao sabor da ilusão.